
Parábola · Literatura brasileira
Se eu baixar
“Argumento, ali, era altura.”
Um pátio de terra, uma árvore torta, uma torneira que pinga. Na neblina, um círculo de gente: cada um aponta um revólver para a nuca da frente e sente outro cano na própria nuca. Ninguém sabe quem começou. A única regra nasce sem autor e corre de boca em boca: se eu baixar, o de trás atira.
Ciro mira uma mulher que ainda não falou. Atrás dele, um cano que não treme. Ao longo de uma noite sem horas, a frase vai ganhando corpo — a sede, a cãibra, um nome dito para o tiro não ser anônimo, um amigo onde não devia haver amigo — e cada gesto mínimo passa a valer uma vida.
Se eu baixar é uma parábola seca sobre como a violência se sustenta: não pelo homem que manda, mas por cada um que teme o vizinho.

